segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Eliza Samudio é Atriz pornô, por isso merece Pena de Morte?

Machismo e a Estupidez Generalizada do Povo:


Por:


Contardo Calligaris, psicanalista italiano radicado no Brasil. É colunista da Folha de S. Paulo.


- “É uma idéia antiga: uma mulher, que se ousa desejar, só pode ser uma “puta”, com a qual tudo é permitido... (estuprá-la, estropiá-la...)”


Estupidamente assassinada, Eliza Samudio. O único crime dela? Tentar ganhar a vida com sua beleza.



RESISTI a pedidos e pressões para que comentasse o caso do goleiro Bruno. Não gosto de especular sobre investigações inacabadas ou acusações ainda não julgadas.


No entanto, especialmente nos crimes midiáticos, sempre há fatos e atos que merecem comentário e que não dependem da culpa ou da inocência de suspeitos ou acusados.


Por exemplo, durante a investigação sobre a morte de Isabella Nardoni, o fato mais interessante era a agitação da turba: diante da delegacia de polícia, os linchadores pulavam e gritavam indignados só quando aparecia, nas câmeras de TV, a luz vermelha da gravação.


Há turbas parecidas no caso do goleiro Bruno. E, além das turbas, também alguns delegados de polícia parecem se agitar especialmente quando as câmeras estão ligadas, o que, provavelmente, não contribui ao progresso das investigações.


Mas o que me tocou, nestes dias, foi outra coisa. Segundo o advogado Ércio Quaresma Firpe, que defende o goleiro Bruno, a polícia estaria investigando um crime inexistente, pois Eliza Samudio estaria viva e se manteria em silêncio e escondida pelo prazer de ver o Bruno acusado e preso. Para perpetrar essa vingança, aliás, Eliza não hesitaria em abandonar o próprio filho de cinco meses.


É uma linha de defesa que faz sentido, visto que, até aqui, o corpo de Eliza não apareceu. Mas o advogado Firpe, para melhor transformar a vítima presumida em acusada, tentou apontar supostas falhas no caráter de Eliza soltando uma pérola: “Essa moça”, ele disse, “é atriz pornô”.


Posso imaginar a expressão que acompanhou essa declaração: o tom maroto que procura a cumplicidade de quem escuta, uma levantadinha de sobrancelhas para que a alusão confira um valor especialmente escuso à letra do que é dito.


Estou romanceando? Acho que não. De mesa de restaurante em balcão de bar, já faz semanas que ouço comentários parecidos, de homens e mulheres, mas sobretudo de homens: Eliza Samudio era “uma maria chuteira”, uma mulher fácil...


Será que essas “características” de Eliza absolvem seus eventuais assassinos? Claro que não, protestariam imediatamente os autores desses comentários.


Mas o fato é que suas palavras deixam pairar no ar a idéia de que, de alguma forma, a vítima (se é que é vítima mesmo, acrescentaria o advogado Firpe) fez por merecer...


Pense nos inúmeros comentários sobre o caso de Geisy Arruda, aluna da Uniban: tudo bem, os colegas queriam estuprá-la, isso não se faz, mas, também, como é que ela vai para a faculdade com aquele vestidinho curto e tal?


No processo contra um estuprador, por exemplo, é usual que a defesa remexa na vida sexual da vítima tentando provar sua facilidade e sua promiscuidade, como se isso diminuísse a responsabilidade do estuprador.


Isso acontece até quando a vítima é menor: estuprou uma menina de 12 anos? Cadeia nele; mas, se a menina se prostituía nas ruas da cidade, é diferente, não é?


Diante de um júri popular, essas considerações funcionam, de fato, como circunstâncias atenuantes: talvez estuprar “uma puta” não seja bem estupro...


Em suma, quando a vítima é uma mulher e seu algoz é um homem, é muito freqüente (e bem-vindo pela defesa) que surja a dúvida: será que o assassino ou o estuprador não foi “provocado” pela sua vítima?


Atrás dessa dúvida recorrente há uma idéia antiga:
o desejo feminino, quando ele ousa se mostrar, merece punição.


Para muitos homens, o corpo feminino é o da mãe, que deve permanecer puro, ou, então, o da puta, ao qual nenhum respeito é devido: uma mulher, se ela deseja, só pode ser a puta com a qual tudo é permitido (estuprá-la, estropiá-la).


Além disso, se as mulheres tiverem desejo sexual próprio, elas terão expectativas quanto à performance dos homens; só o que faltava, não é?


Também, se as mulheres tiverem desejo próprio, por que não desejariam outros homens melhores do que nós?


Seja como for, para protestar contra a observação brejeira do advogado Firpe, mandei fazer uma camiseta com a escrita que está no título desta coluna. Mas o ideal seria que ela fosse adotada pelas mulheres.


Podem mandar fazer, sem problema; o advogado Firpe não tem “copyright” da frase.



Eliza Samudio, moça bela e carismática morta brutalmente



Nota do dono do site Sete Antigos Heptá:


É triste, mas a sociedade brasileira ainda é extremamente machista, e possui ainda um moralismo barato que herdou da já muito superada igreja católica, como é um país majoritariamente cristão essa filosofia de boteco continua a ser eternizado. Alimentado por textos antigos, distorcidos e sem nexo, rascunhados há mais de 2 mil anos...


A estupidez é secular...


Entrevista de Eliza Samudio:


Fonte:

http://contardocalligaris.blogspot.com/2010/07/eu-sou-atriz-porno-e-dai.html



Sites recomendados:


- Basta de violência contra as mulheres: JUSTIÇA PARA ELIZA!:

http://nucleopaoerosas.blogspot.com/2010/07/basta-de-violencia-contra-as-mulheres.html


- Site sobre a questão dela ser Atriz Pornô:

http://sitedobareta.com/brasil/videos-porno-da-ex-namorada-do-goleiro-bruno-do-flamengo-eliza-samudio-caem-na-internet-17-07-2010


Assunto Relacionado:


Pagina Índice, tudo sobre Religião:

http://seteantigoshepta.blogspot.com/2010/05/pagina-indice-tudo-sobre-religiao.html


Bruno Guerreiro de Moraes, apenas alguém que faz um esforço extraordinariamente obstinado para pensar com clareza.

3 comentários:

Estevão disse...

Até quando esse brasil vai continuar com essas rédeas???

Gostei muito do seu ponto de vista, pena que o brasil não pensa assim, essa "Alimentado por textos antigos, distorcidos e sem nexo, rascunhados há mais de 2 mil anos..." já foi e está indo longe de mais...

Bruno Guerreiro de Moraes disse...

Olá Estevão, é verdade, uma coisa que o psicanalista Contardo Calligaris não ousou criticar foi a religião.

Esse é um texto retirado do jornal Folha de S.P., onde ele tem uma coluna.

Logicamente o jornal o censurou para não inflamar os leitores cristãos.

Ao ler o texto dele, senti essa "amarra", por isso escrevi a nota logo abaixo. Já que não tenho que me preocupar com instituições religiosas.

Esse assunto é para mim, qualificado como Religioso, tinha esquecido de colocar uma ligação para o índice sobre religião aqui no site no fim do post, e você me lembrou.

Acesse a pagina e leia mais artigos sobre minha opinião quanto as religiões.

Abraço!

Roder disse...

Pois é... Eu não tenho nem comentários a respeito disso. Só uma coisa, a majoritariedade machista precisam um dia passar pela mesma experiência do que Eliza passou para deixarem de serem assim... Valeu por mais essa postagem! Muito interessante o conteúdo.

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Triste Realidade:

- “Lamento, eu lamento muito... mas a maior revelação que o ‘Salto’ trás não é consolador, mas sim perturbador. O Mundo em que estamos é um campo de concentração para extermino de uma super potencia do universo local”. [Bruno G. Moraes]