Machismo e a Estupidez Generalizada do Povo:
Por:
Contardo Calligaris, psicanalista italiano radicado no Brasil. É colunista da Folha de S. Paulo.
- “É uma idéia antiga: uma mulher, que se ousa desejar, só pode ser uma “puta”, com a qual tudo é permitido... (estuprá-la, estropiá-la...)”
RESISTI a pedidos e pressões para que comentasse o caso do goleiro Bruno. Não gosto de especular sobre investigações inacabadas ou acusações ainda não julgadas.
No entanto, especialmente nos crimes midiáticos, sempre há fatos e atos que merecem comentário e que não dependem da culpa ou da inocência de suspeitos ou acusados.
Por exemplo, durante a investigação sobre a morte de Isabella Nardoni, o fato mais interessante era a agitação da turba: diante da delegacia de polícia, os linchadores pulavam e gritavam indignados só quando aparecia, nas câmeras de TV, a luz vermelha da gravação.
Há turbas parecidas no caso do goleiro Bruno. E, além das turbas, também alguns delegados de polícia parecem se agitar especialmente quando as câmeras estão ligadas, o que, provavelmente, não contribui ao progresso das investigações.
Mas o que me tocou, nestes dias, foi outra coisa. Segundo o advogado Ércio Quaresma Firpe, que defende o goleiro Bruno, a polícia estaria investigando um crime inexistente, pois Eliza Samudio estaria viva e se manteria em silêncio e escondida pelo prazer de ver o Bruno acusado e preso. Para perpetrar essa vingança, aliás, Eliza não hesitaria em abandonar o próprio filho de cinco meses.
É uma linha de defesa que faz sentido, visto que, até aqui, o corpo de Eliza não apareceu. Mas o advogado Firpe, para melhor transformar a vítima presumida em acusada, tentou apontar supostas falhas no caráter de Eliza soltando uma pérola: “Essa moça”, ele disse, “é atriz pornô”.
Posso imaginar a expressão que acompanhou essa declaração: o tom maroto que procura a cumplicidade de quem escuta, uma levantadinha de sobrancelhas para que a alusão confira um valor especialmente escuso à letra do que é dito.
Estou romanceando? Acho que não. De mesa de restaurante em balcão de bar, já faz semanas que ouço comentários parecidos, de homens e mulheres, mas sobretudo de homens: Eliza Samudio era “uma maria chuteira”, uma mulher fácil...
Será que essas “características” de Eliza absolvem seus eventuais assassinos? Claro que não, protestariam imediatamente os autores desses comentários.
Mas o fato é que suas palavras deixam pairar no ar a idéia de que, de alguma forma, a vítima (se é que é vítima mesmo, acrescentaria o advogado Firpe) fez por merecer...
Pense nos inúmeros comentários sobre o caso de Geisy Arruda, aluna da Uniban: tudo bem, os colegas queriam estuprá-la, isso não se faz, mas, também, como é que ela vai para a faculdade com aquele vestidinho curto e tal?
No processo contra um estuprador, por exemplo, é usual que a defesa remexa na vida sexual da vítima tentando provar sua facilidade e sua promiscuidade, como se isso diminuísse a responsabilidade do estuprador.
Isso acontece até quando a vítima é menor: estuprou uma menina de 12 anos? Cadeia nele; mas, se a menina se prostituía nas ruas da cidade, é diferente, não é?
Diante de um júri popular, essas considerações funcionam, de fato, como circunstâncias atenuantes: talvez estuprar “uma puta” não seja bem estupro...
Em suma, quando a vítima é uma mulher e seu algoz é um homem, é muito freqüente (e bem-vindo pela defesa) que surja a dúvida: será que o assassino ou o estuprador não foi “provocado” pela sua vítima?
Atrás dessa dúvida recorrente há uma idéia antiga: o desejo feminino, quando ele ousa se mostrar, merece punição.
Para muitos homens, o corpo feminino é o da mãe, que deve permanecer puro, ou, então, o da puta, ao qual nenhum respeito é devido: uma mulher, se ela deseja, só pode ser a puta com a qual tudo é permitido (estuprá-la, estropiá-la).
Além disso, se as mulheres tiverem desejo sexual próprio, elas terão expectativas quanto à performance dos homens; só o que faltava, não é?
Também, se as mulheres tiverem desejo próprio, por que não desejariam outros homens melhores do que nós?
Seja como for, para protestar contra a observação brejeira do advogado Firpe, mandei fazer uma camiseta com a escrita que está no título desta coluna. Mas o ideal seria que ela fosse adotada pelas mulheres.
Podem mandar fazer, sem problema; o advogado Firpe não tem “copyright” da frase.
Eliza Samudio, moça bela e carismática morta brutalmente
Nota do dono do site Sete Antigos Heptá:
É triste, mas a sociedade brasileira ainda é extremamente machista, e possui ainda um moralismo barato que herdou da já muito superada igreja católica, como é um país majoritariamente cristão essa filosofia de boteco continua a ser eternizado. Alimentado por textos antigos, distorcidos e sem nexo, rascunhados há mais de 2 mil anos...
A estupidez é secular...
Entrevista de Eliza Samudio:
Fonte:
http://contardocalligaris.blogspot.com/2010/07/eu-sou-atriz-porno-e-dai.html
Sites recomendados:
- Basta de violência contra as mulheres: JUSTIÇA PARA ELIZA!:
http://nucleopaoerosas.blogspot.com/2010/07/basta-de-violencia-contra-as-mulheres.html
- Site sobre a questão dela ser Atriz Pornô:
Assunto Relacionado:
Pagina Índice, tudo sobre Religião:
http://seteantigoshepta.blogspot.com/2010/05/pagina-indice-tudo-sobre-religiao.html
Bruno Guerreiro de Moraes, apenas alguém que faz um esforço extraordinariamente obstinado para pensar com clareza.


3 comentários:
Até quando esse brasil vai continuar com essas rédeas???
Gostei muito do seu ponto de vista, pena que o brasil não pensa assim, essa "Alimentado por textos antigos, distorcidos e sem nexo, rascunhados há mais de 2 mil anos..." já foi e está indo longe de mais...
Olá Estevão, é verdade, uma coisa que o psicanalista Contardo Calligaris não ousou criticar foi a religião.
Esse é um texto retirado do jornal Folha de S.P., onde ele tem uma coluna.
Logicamente o jornal o censurou para não inflamar os leitores cristãos.
Ao ler o texto dele, senti essa "amarra", por isso escrevi a nota logo abaixo. Já que não tenho que me preocupar com instituições religiosas.
Esse assunto é para mim, qualificado como Religioso, tinha esquecido de colocar uma ligação para o índice sobre religião aqui no site no fim do post, e você me lembrou.
Acesse a pagina e leia mais artigos sobre minha opinião quanto as religiões.
Abraço!
Pois é... Eu não tenho nem comentários a respeito disso. Só uma coisa, a majoritariedade machista precisam um dia passar pela mesma experiência do que Eliza passou para deixarem de serem assim... Valeu por mais essa postagem! Muito interessante o conteúdo.
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